As árvores grandes também caem
Durante muitos anos, aquele pinheiro pareceu invencível. Cresceu ali, estava ali: alto, firme, acostumado ao vento, às estações e ao tempo. Ao tempo inteiro. Quem passava por ele imaginava que ali estaria sempre, como se algumas presenças fossem demasiado grandes para desaparecerem. Era como uma coluna de tempo fincada na terra, dando a ilusão de que algumas coisas tinham feito um acordo secreto com a eternidade.
Mas até as presenças que parecem escrever o seu nome no horizonte vivem apenas de um equilíbrio silencioso com o vento.
Porque um dia veio a tempestade. E o que parecia permanente revelou-se frágil.
E isto é humano. Profundamente humano. Desde cedo aprendemos a associar a grandeza à permanência: árvores enormes, montanhas, impérios, certezas. Tudo isto parece ser uma grandeza inquebrável. Tudo isto parece poderosamente eterno, capaz de desafiar o próprio destino.
No entanto, a história — da natureza e dos homens — lembra-nos continuamente que nada está fora do alcance do tempo. E esquecemo-nos facilmente disso.
Esquecemo-nos porque vivemos como se o relógio do mundo tivesse decidido poupar-nos: erguemos certezas como quem constrói casas em areia aparentemente firme, sem notar que a maré sobe devagar. E caminhamos entre as coisas antigas com a inocência de quem acredita que aquilo que sempre esteve ali escolheu ficar para sempre.
Mas há o tempo! E virá um dia em que o vento nos lembra que nada, por maior que seja, está dispensado de cair.
E caiu! Caiu o pinheiro grande!
Lembrei-me, agora de repente, de Yggdrasil, a grande árvore do mundo, que sustenta os céus e a terra. Mesmo ela, dizem os antigos relatos, treme no dia do fim. Também os textos bíblicos repetem que “toda a carne é como a erva”, lembrando que a força e a glória passam como as estações.
E se quisermos recordar os filósofos, eles não disseram algo muito diferente. Heraclito escreveu que tudo flui, tudo muda. E Michel Montaigne lembrou que talvez a maior sabedoria seja aceitar a nossa condição instável, a consciência de que aquilo que hoje se ergue pode amanhã cair.
Quando uma árvore grande cai, não é apenas a o seu tronco, os seus ramos ou galhos, a sua madeira toda que se deita no chão. Cai também a ideia silenciosa de permanência. O que permanece é outra coisa: o ciclo da vida, a transformação contínua, a humildade que nasce ao percebermos que grandeza e fragilidade caminham juntas, lado a lado. O que hoje é amanhã pode não ser! O que hoje se ergue amanhã pode já não estar!
Talvez seja essa a lição do pinheiro grande que caiu naquele dia em que o vento decidiu soprar com força! Muita força!
E quando assim é, mesmo as árvores mais altas, mais robustas e mais antigas do que a memória das estações acabam por aprender a linguagem silenciosa da queda.
Porque qualquer grandeza pertence ao mesmo destino de todas as coisas — nascer, crescer, resistir… e, um dia, cair. Ou ceder ao vento.
Texto do Escritor Luís Ochoa
Ilustrações do Artista Plástico Fernando Marques
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